Por Wagner Gomes
Toda eleição precisa de um personagem improvável que bagunce o roteiro dos favoritos. Renan Santos entrou na disputa pela porta lateral. Fundador do MBL e candidato pelo Missão, ainda está longe de ser pule de dez, mas reúniria condições para encarnar o cisne negro da eleição. O fato é que já deixou de ser curiosidade. Virou problema. Ao aparecer competitivamente diante de nomes tradicionais da direita, expôs uma fragilidade conhecida: experiência sem eletricidade não mobiliza. Governadores têm mandato, currículo e máquina. Renan tem o feed, o corte viral, o deboche e a frase que atravessa o WhatsApp.
Seu discurso mistura ordem pública à moda Bukele, economia com perfume de Milei, pancadas em Lula e ataques ao bolsonarismo familiar, tudo embalado numa estética de startup. O Planalto, sugere, poderia funcionar como empresa. Bonito no slide. Mas país não é aplicativo, pobre não é usuário inativo e Constituição não é termo de uso.
Ele não se apresenta como herdeiro do clã Bolsonaro nem como viúva de 2018. Tenta capturar o eleitor que rejeita Lula, mas se cansou do bolsonarismo como religião de família. Para esse público, Bolsonaro deixou de ser ruptura e virou repetição. A comparação com Pablo Marçal ajuda. Marçal entendeu que a política virou palco; Renan tenta oferecer uma versão mais organizada da fórmula: menos circo, mais projeto de poder. Marçal é explosão. Renan quer ser usina. Até aqui, poderia ser apenas mais um capítulo da política digital brasileira.
O canhão da Justiça Eleitoral
Mas então apareceu a caneta. O ministro Dias Toffoli, atuando no TSE, determinou a suspensão de parcela substancial da campanha de Renan: restringiu sua propaganda eleitoral digital, sua participação em debates, entrevistas, sabatinas e podcasts e suspendeu repasses do Fundo Eleitoral. A decisão decorreu da informação tardia de 16 perfis de redes sociais, apresentados à Justiça Eleitoral doze dias depois do pedido inicial de registro da candidatura. Um deles reunia cerca de 2,4 milhões de seguidores. Para Toffoli, a omissão poderia proporcionar vantagem algorítmica e constituir indício de fraude à legislação eleitoral.
A irregularidade merece ser examinada. Esse não é o ponto. O ponto é saber se, para matar uma mosca eleitoral, a República precisa disparar um canhão. A dimensão das restrições provocou críticas dentro do próprio TSE. Há, portanto, controvérsia jurídica real sobre a proporcionalidade da medida – não apenas reclamação de candidato contrariado. E surge inevitavelmente a pergunta sobre isonomia. Levantamento divulgado pelo Estadão apontou que 2.744 candidatos não haviam informado nenhum endereço de rede social à Justiça Eleitoral até 31 de agosto. Isso não significa que todos estejam em situação idêntica à de Renan, nem autoriza transformar irregularidades diferentes em casos iguais.
Renan tampouco foi o único atingido: Toffoli aplicou restrições semelhantes ao candidato Wilson Grassi. Esse fato impede a conclusão simplista de que apenas Renan tenha sido escolhido para punição. Mas não elimina a questão central: qual deve ser a extensão do poder de uma decisão individual capaz de retirar um candidato presidencial de debates, entrevistas e de parte relevante da arena pública durante uma campanha?
Será que a tentativa de conter o avanço do algoritmo acabou entregando o melhor palco possível ao candidato?
A fabricação do mártir
Nem é preciso acreditar em perseguição para considerar o episódio preocupante. O paradoxo é precioso: em nome de impedir que o algoritmo produzisse vantagem indevida para um candidato, uma decisão judicial pode acabar produzindo uma vantagem política ainda maior para seus adversários. O objetivo declarado foi equilibrar a disputa. O efeito pode ser desequilibrá-la por outro caminho. E há outro risco que Brasília frequentemente esquece: transformar adversário em mártir é uma das formas mais eficientes de fazê-lo crescer.
Renan dominava a narrativa do rebelde digital. Agora recebeu de presente a narrativa do candidato silenciado. A imagem com a palavra “Censurado” talvez alcance eleitores que jamais assistiriam espontaneamente a um vídeo seu. Isso não o absolve de eventual irregularidade. Democracia não funciona com candidatos escolhendo quais regras desejam cumprir. Mas também não funciona bem quando a punição corre vários metros à frente da sentença. Se continuasse crescendo, Renan passaria de curiosidade a alvo estratégico. A previsão envelheceu depressa. A máquina trituradora de reputações talvez nem tenha precisado ser ligada: entrou em cena algo muito mais poderoso – a máquina institucional.
O sistema contra o algoritmo
Outsider pequeno é folclore. Outsider crescendo vira ameaça. E ameaça, no Brasil, raramente apanha com luva. Renan ainda precisa provar que existe fora da bolha digital e falar com o Brasil que não acompanha corte de podcast. O país não cabe em reels. Continua sendo, em boa medida, mais sintoma do que solução: revela partidos fracos, uma direita desorientada e uma geração que às vezes confunde contundência com programa.
Mas o episódio Toffoli acrescentou uma pergunta que já não diz respeito apenas a Renan Santos. Quem vigia a fronteira entre o poder necessário para garantir eleições limpas e o poder monocrático excessivo de interferir na própria disputa? Mas a história mudou antes que o martírio se consolidasse. Diante da reação jurídica, política e pública, Toffoli recuou de sua decisão, no mínimo controversa. Feito o estrago, a campanha de Renan ganhou combustível novo.
Jânio veio com a vassoura. Collor, com o caçador de marajás. Lula se vestiu de paz e amor. Bolsonaro respondeu com o berro. Renan chegou com o algoritmo. Mesmo com o recuo de Toffoli, Renan encontrou exatamente aquilo de que um candidato antissistema mais precisa: um sistema contra o qual lutar. Eis a ironia: tentando limitar o candidato do algoritmo, a Justiça pode ter acabado de lhe entregar o melhor algoritmo de todos – o da indignação.





















