(por André R. Costa Oliveira)
“Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?”
(Marcelo Bonfá-Dado Villa-Lobos-Renato Russo)
Perguntei a alguns grupos de adolescentes o que vem a ser o termo “cringe”, aliás, um dos 20 mais procurados em sites de busca nos últimos anos.
A melhor – e talvez e a mais bizarra – explicação que recebi é a de que “ser cringe é perguntar o que é cringe”. Daí “lacrou” a minha vã pesquisa mais do que ingênua e despretenciosa. Deu medo.
Fui então mais fundo. Descobri que “cringe” é uma gíria inglesa que significa “vergonha alheia”, “sem noção”, “pagar mico”, “brega”, “fora de moda”, “ultrapassado”, “vintage”, “old fashioned”, “démodée” e por aí vai.
Na prática, eu entendi que a tal da malfadada “geração Z” (galerinha que, pelo que entendi, nasceu entre os anos de 1995 e 2010) “legislou” decretando que os hábitos e os comportamentos oriundos de toda e qualquer geração anterior são considerados como algo “cringe”.
Vamos falar sobre isso:
Contraditoriamente , a geração de hoje (que os jovens dizem que é a geração não-cringe, por assim dizer) é a mais preparada de todas em determinados pontos e, ao mesmo tempo, a geração também mais despreparada. Tenho absoluta certeza disso.
Preparada sob os aspectos das habilidades e do conhecimento rápido, acessível e gratuito, sobretudo com o enorme arcabouço tecnológico franqueado; porém despreparada porque não tolera lidar com a menor frustração que seja, desprezando o esforço e não conseguindo criar nada a partir da dor.
Não se iludam: ninguém nesse mundo nasce com “direito adquirido” à felicidade plena!!!
Já especificamente sobre a classe média brasileira, noto a existência de uma geração que tem acesso a bons colégios, ao aprendizado de outros idiomas, a viagens eventuais com toda a segurança, a atividades físicas em academias caras, a um plano de saúde “premium”, ou seja, a muito mais “ferramentas” do que os próprios pais tiveram. Mas que vem crescendo com a ilusão infante de que a vida é muito fácil, e de que já teria “nascido totalmente pronta” para o mundo.
Acontece, meus leitores, que o mundo é injusto, é infame e é cruel sim senhores!!! Gostem ou não disso.
O mercado de trabalho que já se avizinha em seus horizontes não será jamais a continuação aconchegante de suas modernas casas e apartamentos em seguros condomínios, com pessoas boazinhas, complacentes e compreensivas atendendo ao seus caprichos e desejos, essas mesmas “pessoas” que, durante um mês inteiro de trabalho, ganham menos do que você gasta com ifood, ingerindo uma comida-merda-ultraprocessada.
Não se trata de um videogame com um número ilimitado de “vidas”. Não há como “pausar”, não há como “reiniciar” partida nova. E não adianta sentir-se “traído”, “injustiçado” e tentar culpar o mundo com o “mimimi” que nós, mais velhos, tanto conhecemos – e não suportamos. Coisa mais chata isso.
“Muita gente apenas existe e não vive”, como escreveu certa vez Oscar Wilde. Vida é construção, é aperfeiçoamento. Vida é acreditar – mesmo em um país de disparates, de impunidades, de iniquidades e de injustiça social – que os mocinhos vencem. E que nós seremos sempre os mocinhos, se tivermos integridade e respeito ao próximo. Não os idiotas que se vangloriam porque não estudam, ou porque agridem professores, ou porque “dão um jeitinho em tudo” ou porque conseguem as coisas sem nenhum esforço. Isso sim é cringe.
E, caso você, leitor de tenra idade, acredita que estou errado, leia Nelson Rodrigues, e aprenda com seus aforismos geniais que “a maioria dos jovens deve ansiar diariamente por crescer e por ficar mais velha logo e, consequentemente, mais interessante”.
Na qualidade de educador, não há um único dia em que eu não me depare com diversos pais e mães profundamente angustiados, frustrados porque, na visão deles, não estão conseguindo acompanhar o mundo e, supostamente, estão fracassando no “projeto” de que os filhos sejam 100% felizes, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias ao ano, “blindados” das frustrações possíveis e imunes a quaisquer transtornos (mesmo com tais pais e mães fazendo verdadeiros malabarismos físicos, emocionais e financeiros sobre-humanos). E pior: sem exigir de seus filhos e filhas qualquer contrapartida em temos de responsabilidade e de comprometimento. A propósito, uma constatação patente: o inferno, certamente, guarda um lugar especial ao ser humano infame, inventor do “grupo de mães e de pais de WhatsApp da escola”. Tenham a certeza disso.
Ontem, por exemplo, eu tomei conhecimento de uma adolescente que ganhou um iPhone 15 de sua mãe, e que agora passa o dia inteiro fazendo selfies vulgares e postando vídeos de “tik -tok” em suas diversificadas redes sociais nos quais se nota, claramente, que a casa em que, na casa na qual reside, não existe um mínimo reboco nas paredes, e que conta até hoje com telhado de amianto. Quanto à própria calcinha suja, jaz arremessada atrás da porta.
Frustar então um filho é sinônimo de fracasso? E você, que é pai ou mãe, tem realmente que sentir-se tal qual devedor insolvente a partir do momento em que seu filho vem ao mundo? Tal premissa, uma vez aceita como sendo a verdade, leva à afirmação fatídica de que a raça humana estará irremediavelmente extinta em pouquíssimas centenas de anos. Avizinha-se o tempo em que ninguém vai desejar
mais procriar no mundo, já que filho, sob esse prisma, torna-se fatal “kriptonita” aos corpos e às mentes frágeis dos supostos super-homens e super-mulheres desse século. E “porque las estirpes condenadas a cien años de soledad no tenían una segunda oportunidad sobre la tierra”*. Melhor então que a humanidade seja mesmo extinta. Extinção talvez não seja algo cringe. Deus, envie de uma vez por todas esse meteoro logo.
Outras perguntas que nos surgem: é possível que alguém tenha uma vida imune às frustrações da própria vida? Não seriam a frustração e o fracasso as experiências mais pedagógicas que alguém pode ter ao longo de sua existência?
Não há dúvida de que todos os pais e mães desse mundo querem dar sempre o melhor aos filhos. Eu tenho duas filhas e sei muito bem disso. Reconheço isso. Entretanto, ensinar aos filhos o valor da finitude de corpos e mentes, de um bom livro, de uma obra de arte em geral (alimento do espírito), de uma alimento preparado com amor por mais simples que ele seja, da ciência que impulsiona e edifica a civilização humana, da luta legítima pela igualdade de oportunidades, do esforço em prol de si mesmo e em prol do grupo, de uma conquista nova e da capacidade de superação de obstáculos é muito mais valioso do que a viagem à Disney ou o IPad de última geração. Eu gosto da Disney. Eu gosto de iPad. Mas eu me recuso terminantemente a dividir pessoas entre “aquelas que já foram e aquelas que não foram à Disney”, como disse uma vez, brilhantemente, o saudoso Ariano Suassuna.
Aliás, um ponto importante sobre o esforço em prol de si mesmo e em prol de um grupo, que eu mencionei agora há pouco: esforçar-se não é coisa só de classe C ou de classe D, que obviamente luta muito para conquistar o seu lugar ao sol.
O esforço e o sacrifício são dignos e lindos, e, enquanto valores, estão muito acima de qualquer poder aquisitivo, uma vez que se identificam sobretudo com caráter, com perseverança. E o não-esforço, em meu modesto entendimento, é covardia, desprezo pela humanidade e uma total vulgaridade de princípios. Não-esforço, não duvidem, é outra coisa totalmente cringe. Ao extremo.
Também é cringe quando as pessoas, em determinado núcleo familiar, não estão dispostas a falar e muito menos a ouvir umas às outras – mais especialmente esse tal de “ouvir”, porque promove a revisão de escolhas e o reconhecimento de erros cometidos.
Constatei que há inúmeras “técnicas” que algumas famílias utilizam para isso, na tentativa de driblarem o diálogo: desde a TV ou o fone de ouvido em volume indecentemente alto (porque, daí, as pessoas não precisam sequer se olhar nos olhos); a “terceirização” da criação dos filhos à escola e à tecnologia meramente quantitativa; o uso excessivo de medicação pesada; dependência de drogas lícitas e ilícitas; refeições realizadas individualmente, em horários e em quartos separados, sem a possiblidade de ensinamento.
Digo isso tudo porque sou de uma geração em que não se sentava à mesa de pijama ou sem camisa e em que, nas refeições, a educação dos pais aos filhos era transmitida muito intensamente. Mais do que em qualquer outro momento do dia.
E assim essas famílias seguem tocando as suas vidas, sem encararem as verdades mais elementares, colocando a sujeira sempre embaixo dos tapetes das Casas Bahia. Mas, uma hora, os tapetes não suportarão tanta sujeita. E então o que faremos?
Se os filhos que nos acusam de sermos “cringes” acreditam que são detentores do direito à plena felicidade porque simplesmente “existem”, de que maneira poderemos estabelecer um vínculo autêntico de amor, uma vez que o sofrimento já se encontra previamente fora desse vínculo – já que as frustrações não podem fazer parte da equação da vida? Com efeito, se a relação se edifica sobre algo ilusório, utópico, o fingimento e a dissimulação são as únicas condutas que se verifica.
É como a história no Livro de Daniel, no Antigo Testamento: “O senhor teve uma visão na qual viu uma estátua enorme, de pé, bem na sua frente. A estátua era brilhante, mas metia medo. A cabeça era de ouro puro, o peito e os braços eram de prata, a barriga e os quadris eram de bronze, as pernas eram de ferro, e os pés eram metade de ferro e a outra metade eram de barro. Enquanto o senhor estava olhando, uma pedra se soltou de uma montanha, sem que ninguém a tivesse empurrado. E a pedra caiu sobre os pés da estátua e os despedaçou. E imediatamente o ferro, o bronze, a prata e o ouro viraram pó, como o pó que se vê no verão quando se bate o trigo para separá-lo da palha. E o vento levou tudo embora, sem deixar nenhum sinal.” Não se faz uma família com os pés de barro!
Familia com os pés de barro é cringe. Equilíbrio familiar fragilizado é cringe. Familiares que se desconhecem reciprocamente é cringe. Fingimento e dissimulação é cringe. Pais e mães que simulam aos filhos a garantia da felicidade, sobretudo por meio de suprimento de bens materiais que não poderiam adquirir, são altamente cringes.
Também acho que é cringe quando os pais omitem as dificuldades aos seus próprios filhos, normalmente em decorrência de uma cobrança na sociedade na qual rodos têm que ser absolutamente pleno, poderosos, indestrutíveis, “performáticos” e “espetaculosos”. Nós sabemos que ninguém é indestrutível. E os jovens também necessitam saber disso.
E, por fim, algumas outras coisinhas cringe, que listei com foco nessa geração mais jovem e que nos alcunha, os mais velhos, de sermos nós mesmos as pessoas cringes:
Cringe é escrever com o português ruim; é fazer vídeo de maquiagem e deixar a calcinha no chão de seu quarto. É dizer que o bom e velho rock and roll é música de coroa, enquanto “hipnotiza-se” ouvindo releituras mais recentes – e mal executadas – de canções eternizadas pelo Led Zeppelin. É beber “caipirinha”de vodca norte-americana vagabunda com kiwi, lima da Pérsia e adoçante. É o Jack Daniel’s com energético. É “fugir” da educação física na escola através de um laudo. É não fazer educação física na escola por causa da chuva. É não fazer educação física na escola por qualquer motivo idiota (exceto doença não-inventada). É buscar livros de auto-ajuda e desconhecer o estoicismo. É passar a maior parte do dia em redes sociais fingindo ser quem não é, fazer o que não faz e ter o que não tem. É regozijar-se com as várias “curtidas” que recebe em sua última postagem, sendo que as mesmas normalmente são clicadas pessoas irrelevantes enquanto utilizam o vaso sanitário (aliás, cuidado para que o celular não caia no vaso sanitário, já que você, jovem deslumbrado, não o larga até mesmo em momentos tão “libertadores”). É achar que relacionamentos afetivos apenas se consolidam em aplicativos. É dizer que linguiça de frango é linguiça. É dizer que o tofu é queijo. É dizer que o carpaccio de abóbora é carpaccio. É comer sushi tendo “nojinho” do sashimi. É assar picanha e retirar a gordura. É éxigir privacidade e falar mal dos outros. É falar do dinheiro dos outros. É galar da pobreza dos outros. É utilizar linguagem neutra (coisa de imbecil completo). É reclamar das espinhas no rosto e não cortar refrigerante. É querer debater machismo, feminismo, comunismo e capitalismo sem fazer a mínima ideia do que sejam tais conceitos. É filosofar sobre “energia” sem estar na aula de física. É filosofar sobre as “narrativas” sem estar na aula de literatura.
E, por derradeiro: não ler os meus ensaios literários também é cringe.
*Gabriel Garcia Marquez, in Cien años de Soledad, 1967).
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