Publicidade
Publicidade

A Revolução Francesa: conquista ou tragédia? Qual o seu legado à França e ao mundo? Pense antes de responder.

Ilustração conceitual mostrando a guilhotina do período do terror jacobino contrastada com as tensões sociais na França contemporânea.

Daqui a poucos dias, precisamente em 14 de julho, será feriado nacional na França, com desfiles militares, queima de fogos, bailes, quando se comemora a Queda da Bastilha em 1789, um dos eventos mais importantes simbolicamente, na revolução francesa.

Hoje eu não falarei sobre a revolução em si, mas há algumas questões importantes que eu acho necessário ponderar. Na verdade são considerações sobre os reflexos da revolução em si até os dias hoje, para que vocês percebam que toda a história do mundo é bem mais conectada e entrelaçada do que imaginam.

Em brevíssimo resumo – e como eu sei que vocês todos sabem – a Revolução Francesa foi um período de intensa agitação política e social que transformou a França e impactou o mundo inteiro, tendo como causas a crise do Antigo Regime (ou ancient régime) por conta da enorme pobreza da maior parte da população, da classe burguesa insatisfeita e oprimida em meio a impostos absurdos, do regime absolutista do Rei Luiz XVI e dos privilégios concedidos ao clero e a nobreza perdulária e indiferente; além, obviamente, da influência das ideias iluministas.

E quais foram os principais acontecimentos da Revolução Francesa? a convocação dos Estados Gerais em maio de 1789 que rapidamente se transformou na Assembleia Nacional Constituinte, marcando o fim do absolutismo e o início de uma nova era política; a Tomada da Bastilha (14 de julho de 1789), uma edificação que funcionava como prisão e ao mesmo tempo repartição pública, mas que era símbolo do poder da realeza; a abolição dos privilégios feudais e a proclamação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que estabeleceu princípios de liberdade e igualdade; a instauração da Monarquia Constitucional e, posteriormente, da Primeira República com a execução de Luís XVI e de sua esposa Maria Antonieta; o Período do Terror (1793-1794), sob a liderança de Robespierre, marcado por conspirações, perseguições, assassinatos brutais e milhares de execuções na guilhotina em nome da “pureza” revolucionária que aconteciam às centenas, diariamente nas ruas de Paris (sendo que o próprio Robespierre, de tão sociopata que era, acabou ele mesmo sendo morto pela guilhotina); a instabilidade política subsequente, que levou ao chamado Diretório; e, finalmente, o golpe do 18 de Brumário (1799) orquestrado pelo então general Napoleão Bonaparte, que marcou o fim da Revolução e o início da Era Napoleônica.

E então sigamos adiante: não existe dúvida de que a Revolução Francesa é um dos eventos mais cataclísmicos e influentes da história mundial. Seus ideais de “Liberté, Égalité, Fraternité” – Liberdade, Igualdade e Fraternidade” – inspiraram movimentos por direitos civis e a queda de regimes absolutistas. Contudo, a narrativa simplista de um avanço inquestionável para a modernidade ignora as profundas e as dolorosas cicatrizes deixadas por um processo que, em sua radicalidade, revelou a face mais brutal da busca por uma utopia.

Longe de ser um caminho linear para o progresso, a Revolução Francesa foi um banho de sangue e uma sistemática destruição de valores com inúmeros aspectos negativos de barbárie e de violência que não podem ser negligenciados.

Um dos aspectos mais chocantes da Revolução foi a violência extrema que a permeou, como eu disse há pouco. O período conhecido como o Terror Jacobino, liderado por figuras toscas como Robespierre, transformou a guilhotina em um símbolo sombrio de um regime que, em nome da virtude revolucionária, ceifou a vida de dezenas de milhares de pessoas num período de poucos meses, não apenas reis e rainhas, mas também nobres, religiosos, pequenos e grandes empresários, opositores políticos e até mesmo revolucionários que caíram em desgraça, além de uma grande quantidade de pessoas que não tinha nada a ver com movimentos contra-revolucionários, muitas delas vítimas de paranoia, calúnia ou de simples desafetos, onde uma mera acusação já era suficiente à condenação à morte.

Essa espiral de violência, alimentada pela busca incessante por “inimigos da Revolução”, demonstrou a total e inquestionável fragilidade da razão quando despida de humanidade, transformando os ideais libertários em justificativas para a tirania e o extermínio. Ou seja, zero liberdade, zero igualdade e zero fraternidade.

Além do banho de sangue, a Revolução Francesa foi marcada por uma sucessão vertiginosa de regimes – da monarquia constitucional à república, passando pelo Diretório e culminando no Império Napoleônico. Essa constante flutuação de poder, as conspirações e os golpes internos revelam a incapacidade de consolidar um sistema de governo estável e verdadeiramente democrático. A promessa de uma nova ordem, livre das amarras do Antigo Regime, transformou- se em um ciclo de caos que, paradoxalmente, abriu caminho para a ascensão de um líder ainda mais autoritário – Napoleão Bonaparte – que restauraria a ordem através da força, e que depois simplesmente tentaria conquistar o mundo, afundando a Europa em um lamaçal gigantesco de cadáveres, tanto em terra quanto no mar.

Todavia, talvez o ponto mais nefasto tenha sido a sistemática destruição das tradições, dos valores e das instituições que, por séculos, haviam moldado a sociedade francesa. Influenciados por um racionalismo iluminista abstrato, os revolucionários empreenderam uma campanha de “descristianização”, confiscando bens da Igreja, perseguindo o clero e até mesmo tentando substituir o calendário gregoriano (que a gente utiliza até hoje) por um calendário republicano bizarro. A nobreza então foi aniquilada, os seus símbolos destruídos, e a própria ideia de uma sociedade baseada em laços históricos e costumes foi violentamente desmantelada.

Essa “tabula rasa”, essa tentativa infame de construir uma sociedade do zero, ignorou a sabedoria acumulada da tradição e a importância das instituições como elementos de coesão social e senso de pertencimento.

Ninguém constrói coisa alguma a partir da demolição sistemática de sua própria história! O vácuo deixado por tamanha ruptura radical foi preenchido não pela prometida liberdade, mas pelo terror e pela desordem. E eu realmente espero que vocês, que são mais jovens e idealistas, aprendam algo sobre isso.

E agora outro tópico: em que ponto toda essa loucura nos desnuda a história da França? Saibam que o próprio lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” foi reafirmado e oficializado muito após a Revolução Francesa, pelo menos 120, 130 anos depois de já extinta a famigerada Era Napoleônica, quase como uma tentativa de “reparação” ou de consolidação dos ideais originais após os vários excessos da Revolução e seus desdobramentos.

DO MESMO AUTOR: O Lobo sob Pele de Pastor: A “Bondade” e a Filantropia como Estratégia de Sobrevivência

Inclusive esse lema, inobstante tenha surgido durante a Revolução com a proposta de Robespierre (louco incandescido) para que fosse inscrito em uniformes e bandeiras, só foi mesmo adotado oficialmente na Terceira República Francesa no final do século XIX, quando passou a ser inscrito nas fachadas dos edifícios públicos, nas praças e nos monumentos (e quem já esteve em Paris com certeza já o observou repetidamente), transformando-se num símbolo central de um país unificado, da identidade republicana e dos valores cívicos franceses. Ah, e o lema foi também ratificado após a Segunda Guerra Mundial, durante a qual uma parte significativa da cúpula militar francesa colaborou expressa e escancaradamente com a Alemanha de Hitler…mas isso já é outra história para um outro dia (os franceses, inclusive, abominam tocar nesse assunto).

De qualquer maneira, toda essa revalidação – quase que obcecada – do lema revolucionário teve um preço que a França paga ainda hoje: o excesso e a posição geopolítica francesa no sentido de manter-se como libertária, igualitária e fraternal perante o mundo é algo extremamente delicado.

Toda essa primazia dos valores de liberdade individual e tolerância talvez esteja – sim – em tensão com a coesão social e a identidade nacional especialmente em relação à questão da imigração contemporânea, praticamente desordenada, e que é, de longe, a pauta principal das divergências partidárias na França. Uma abordagem excessivamente liberal sempre leva a desafios na integração de comunidades imigrantes, à formação de guetos culturais que se acham acima das leis francesas ou à dificuldade em impor um modo de vida homogêneo, culminando em gastos governamentais elevados, em tensões sociais e, em casos extremos, problemas de segurança e de criminalidade. Toda liberdade tem um preço, gente. E quanto mais você bradar aos quatro ventos que tem “liberdade”, esse preço aumenta em proporção geométrica.

(por André R. Costa Oliveira)

Compartilhe:
Psicologia e Comportamento
André R. Costa Oliveira

A Sedução do Infinito

Andre Rodrigues Costa Oliveira é jurista, escritor, filósofo, teólogo, neuropsicanalista clínico e docente. Membro Imortal da ALACH - Academia Latino-Americana de Ciências Humanas; Membro Imortal da ANADES - Academia Nacional de Artes e Direito Social. Possui diversas pós-graduações, mestrados e doutorados, investindo conhecimento na compreensão e no estudo aprofundado sobre a natureza e o comportamento humanos em todas as suas esferas. Também pesquisa História da Arte e Gastronomia como elemento civilizacional intrínseco.

Últimas notícias

Publicidade
Publicidade

Publicações que também pode te interessar...

Publicidade
Publicidade