(por André R. Costa Oliveira)
“Quem negará ao futebol esse condão da catarse circense com que os velhos sabidos de Roma lambuzavam o pão triste das massas?”
(Oswald de Andrade)
O fenômeno observado na recente performance da Seleção Brasileira contra a sensacional Seleção da Noruega— um espetáculo de inércia, desprovido daquela tenacidade que outrora era o alicerce de nossa identidade esportiva — não constitui um evento isolado, tampouco uma anomalia estatística.
Pelo contrário, trata-se de um sintoma cristalino de um processo civilizatório mais profundo, onde a busca pela excelência cedeu espaço ao conforto da irrelevância. O futebol, sendo um teatro social de alta visibilidade, acaba por expor, com uma crueza inegável, a erosão de valores que tem assolado a estrutura da juventude contemporânea.
A Anatomia da Desconstrução: O Esvaziamento do Esforço
A base do problema reside na transição de um paradigma de superação para um paradigma de validação imediata.
Historicamente, a construção de um atleta — ou de qualquer indivíduo capaz de grandes feitos — passava obrigatoriamente pela forja da frustração. O erro era o mestre; a derrota, o combustível para a retificação. Contudo, ao nutrirmos uma cultura que, sob o pretexto de preservação emocional, blinda o indivíduo contra o peso do fracasso, acabamos por atrofiar a musculatura psíquica necessária para sustentar o esforço de longo prazo.
Esta “geração desconstruída”, como se manifesta no comportamento apático em campo, reflete o triunfo de uma subjetividade que se crê dotada de um “direito adquirido” ao sucesso, sem o correspondente dever de empenho.
Quando o objetivo final se torna o reconhecimento sem a obra, o compromisso com a excelência — que é, por definição, árduo, solitário e exige renúncias — torna-se um fardo insuportável. O resultado então é essa apatia ultra soberba: o atleta (ou o jovem) que, ao se deparar com a mínima adversidade, não reage com a (necessária) fúria criativa, mas com o recolhimento na alienação.
O Futebol como Espelho de uma Sociedade Alienada
A crítica à Seleção Brasileira é uma crítica ao cotidiano. O que vemos na ineficiência do jogo é o reflexo de uma sociedade que perdeu o norte da finalidade. Se a vida cotidiana é pautada pelo imediatismo de telas e pela gratificação estéril do instante, como poderíamos esperar que a mente, submetida a esse regime de estímulos, possuísse a resiliência necessária para um jogo de noventa minutos, onde a estratégia, a dor física e a pressão psicológica exigem uma presença integral?
A“falta de garra” de que todos nós falamos não é mera deficiência técnica ou física; é falência volitiva. A soberba identificada na falta de esforço é a defesa de quem, temendo o confronto com a realidade — onde a incompetência pode ser medida por um placar ou por um resultado concreto —, prefere a bolha da alienação. É a recusa em habitar a história e a realidade, preferindo a simulacro de uma existência desprovida de atrito.
A Ausência de Perspectiva e o Peso da Inércia
O pessimismo quanto a uma mudança de curso não é um niilismo gratuito, mas o reconhecimento do peso da inércia. Para que o ciclo seja rompido, seria necessária uma reabilitação do conceito de “sacrifício” como valor positivo, algo que colide frontalmente com a atual hegemonia cultural.
O “sistema”, tal como está montado — educacional, esportivo e social —, parece desenhado para perpetuar a mediocridade, pois a mediocridade é mais fácil de gerenciar do que a excelência, que é, por natureza, indócil e questionadora.
Estamos diante de uma configuração psíquica onde o sujeito, ao ser privado do desafio, perde a capacidade de desejar. E sem desejo — não o desejo de consumo, mas o eros pela maestria —, não há movimento genuíno.
A Seleção Brasileira, despida de garra e entregue à soberba, é o monumento erguido a esse vazio. Enquanto a cultura persistir na ilusão de que o “ser” pode prescindir do “fazer” e de que a glória pode ser alcançada sem a transposição do abismo da frustração, o cenário de estagnação tenderá a se consolidar. O óbvio não apenas “aconteceu” no campo; ele se tornou a norma.
“Essa desconexão é o prelúdio de um colapso mais vasto”
A derrota de ontem serve como um lembrete de que, no esporte de alto nível, o talento individual é apenas o ponto de partida, e não a garantia de sucesso.
Embora a habilidade técnica e o brilho criativo sejam componentes essenciais, eles se tornam insuficientes quando não são sustentados por um alicerce robusto de preparo estratégico e disciplina tática.
O futebol moderno recompensou a organização e a resiliência coletiva, demonstrando que o talento, sem a devida aplicação metódica, acaba sucumbindo diante de planos de jogo bem executados.
Infelizmente, é evidente que o preparo e a disciplina são virtudes que nos faltam largamente no momento. O que observamos em campo reflete uma carência estrutural de foco, consistência nas escolhas e comprometimento com o processo, elementos indispensáveis para transformar o potencial bruto em resultados consistentes.
Enquanto priorizarmos apenas a genialidade episódica em detrimento de uma cultura de trabalho rigorosa e disciplinada, continuaremos a ver o talento ser
superado por equipes que, mesmo com menos recursos técnicos, compreendem que a vitória é fruto da construção diária e da obediência ao plano.
A apatia em campo durante todo o jogo revela uma fratura profunda na identidade brasileira: o atleta contemporâneo, desprovido de qualquer senso de pertencimento, encara a camisa que veste não como um símbolo de honra a ser defendido, mas como uma mera vitrine descartável, enquanto a nação, em um exercício de ingenuidade patética, insiste em projetar neles uma representatividade que já não existe.
Essa desconexão é o prelúdio de um colapso mais vasto; ao olharmos para o horizonte político e econômico, o cenário que se desenha após as eleições que se avizinham é desolador. O rombo estatal, fruto dos quatro últimos anos de irresponsabilidade e gestão temerária, aponta para uma crise econômica de proporções apocalípticas no pós-outubro, onde a realidade, tal qual uma derrota inevitável em campo, cobrará o preço de uma soberba que ignorou os fundamentos da sobrevivência em nome de uma fantasia que, finalmente, desmorona sob o próprio peso. Brasileiros, segurem-se como puderem e apertem bem os cintos.
(em 07/26)





















