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Uma Cova, a Parte que te Cabe Desse Latifúndio: O Desdém dos Deuses do Futebol e a Nossa Realidade

Ilustração conceitual dividida entre um brinco de diamante luxuoso e uma lata de sardinha sobre a mesa, representando a desigualdade social no Brasil.

MÉRITO

Caso você não tenha nada de valor material, como os brincos de diamante do Vinicius Júnior, cujo par brilhante moldaram as orelhas do craque brasileiro depois da derrota para a Noruega, não se desespere. Se o bacalhau norueguês é distante, desejo quase inalcançável, mantenha a latinha de sardinha Coqueiro em casa para as horas de emergência. É a parte que lhe cabe no universo das pirâmides sociais.


PALCO

A Noruega é pais de primeiro mundo. Tem índices elevados de tudo quanto é jeito, inclusive o de determinação. Ao descobrir petróleo, inclusive, criou um fundo que beneficia diretamente cada cidadão. No Brasil, ainda se luta para eliminar penduricalhos incorporados aos salários da casta superior, ao mesmo tempo em que o andar de baixo se contenta com pontas de programas sociais revestidos de embustes eleitorais.


COVA

João Cabral de Melo Neto associa a divisão social, inclusive quanto à posse da terra, em Funeral de um Lavrador, musicada por Chico Buarque. Morte e Vida Severina. “Esta cova em que estás, com palmos medida / É a conta menor que tiraste em vida / É a conta menor que tiraste em vida / É de bom tamanho, nem largo, nem fundo / É a parte que te cabe deste latifúndio /É a parte que te cabe deste latifúndio.”


DEFUNTO

O texto escrito ainda num tempo em que as raízes do estado de miserabilidade eram mais profundas e penetravam tanto na carne como na alma, não necessariamente nesta ordem, não serviria muito para quem vive conforme os algoritmos da existência. Hoje são mais voláteis e o que é verdade dolorida agora, amanhã mais não o será.


IGUAL

Mas há semelhanças. “ Não é cova grande, é cova medida/ É a terra que querias ver dividida/ É a terra que querias ver dividida / É uma cova grande pra teu pouco defunto / Mas estarás mais ancho que estavas no mundo / Estarás mais ancho que estavas no mundo.”


PEQUENO

Diz ainda que é “ uma cova grande pra teu defunto parco (pouco) / Porém mais que no mundo te sentirás largo (ancho, no original) porque “ uma cova grande pra tua carne pouca e a terra é dada, não se abre a boca”. Encerra com um é a parte que lhe cabe deste latifúndio.


TEMPO

Existem preocupações que são comuns. Saúde, educação, moradia, segurança. Ao mesmo tempo são visíveis a ruptura familiar tradicional e a alteração de valores existenciais. Alguns temas, como a Copa do Mundo de Futebol, atraem a comoção. Mas quando o cidadão do lado de cá, enxerga um atleta, depois da derrota, aparecer de rosto liso, brincos de diamante e ruma para a casa, um lar espanhol, há sensação de que você aí que chore sozinho as suas mágoas porque não chegou até o lugar que alcancei. Cheira a desdém.


NADA

Mas ainda nos resta a sardinha Coqueiro. Numa macarronada é muito melhor do que nada. Sem trocadilhos.

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(Benedito Said)

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Opinião
Benedito Said

Detalhes

Benedito Said é jornalista e radialista desde 1973. Dono de um estilo próprio, é comunicador respeitável, mantendo público cativo em seu programa Comando das Sete, na Rádio Educadora. Foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Montes Claros e Secretário Municipal da Educação. É professor. Toda essa experiência confere a ele conhecimento, experiência e o domínio de um texto que mistura temas relevantes com humor refinado e rara ironia.

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