(por André Rodrigues Costa Oliveira)
A genialidade de Federico Fellini em E la nave va (1983) manifesta-se não apenas na grandiosidade de sua metalinguagem e na atmosfera crepuscular de um mundo em vias de extinção, mas na precisão com que retrata a psicologia de seus personagens. Entre os diversos arquétipos que compõem a fauna artística reunida no transatlântico rumo a Erimo para espalhar as cinzas da diva Edmea Tetua, destaca-se a soprano Irma Lepore. Dona de um ego monumental e de uma altivez inabalável, Irma carrega consigo um pequeno cão pequinês cujo nome é uma provocação ambulante: Tigrane, uma clara homenagem indesejada ao seu maior rival nos palcos, o tenor Tigrane Chicocini. À primeira vista, o gesto de batizar o animal de estimação com o nome da pessoa que mais se despreza parece o ápice de uma vingança mesquinha – uma forma de subjugar o desafeto, transformando-o em um ser diminuto, submisso e dependente de carícias. No entanto, uma análise mais profunda revela uma verdade incômoda e fascinante: o ódio absoluto e a paixão obsessiva compartilham a mesma raiz psíquica. Longe de ser um mero ato de repulsa, o gesto de Irma pode ser lido como uma forma distorcida, porém visceral, de amor e apego. O psicanalista e os teóricos da dinâmica relacional sabem que o verdadeiro oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. A indiferença desfaz, anula e torna o outro invisível. O ódio, pelo contrário, exige um investimento monumental de energia psíquica. Para odiar alguém com a intensidade necessária para trazer o seu nome para o próprio santuário afetivo, é preciso conceder a essa pessoa um lugar central na própria existência. Ao carregar Tigrane (o cão) no colo, mimá-lo e exibi-lo perante a alta sociedade do navio, Irma traz o rival para o centro de sua vida cotidiana. Chicocini nunca está ausente; ele é domesticado, reduzido à obediência, mas mantido permanentemente sob o campo visual e tátil da soprano. É o triunfo da ambiguidade: a artista não consegue – e não quer – viver sem a presença simbólica daquele que desafia a sua hegemonia artística. No microcosmo operístico retratado por Fellini, os sentimentos nunca são lineares; eles vivem no registro do paroxismo e do melodrama. As grandes divas e os grandes tenores alimentam-se simbioticamente de suas rivalidades. O antagonista é, paradoxalmente, o ser mais importante no horizonte de um artista egocêntrico, pois é o único capaz de medir a sua grandiosidade e atestar o seu valor. Para Irma Lepore, o tenor Tigrane Chicocini funciona como um espelho deformador, mas indispensável. Sem a tensão dramática gerada por essa inimizade pública, o mundo artístico de Irma perderia o relevo, a cor e o conflito que dão sentido à sua persona pública. O cão, portanto, torna-se o fetiche dessa relação simbiótica: um troféu vivo onde o rancor e o afeto se fundem de modo indissociável. O detalhe do pequinês em E la nave va resume a ironia humanista de Fellini. Aos olhos da plateia, Irma demonstra desprezo pelo rival; na intimidade psicológica de seu afeto, ela o acolhe no colo. O ódio convertido em bicho de estimação revela que, nas altas esferas da paixão e da vaidade, odiar profundamente alguém é, no fundo, recusar-se a deixá-lo ir. Já na “vida real”, a lendária rivalidade entre Maria Callas e Renata Tebaldi transcendeu os palcos do alla Scala para se tornar um verdadeiro fenômeno cultural, alimentado por uma imprensa sensacionalista que adorava contrapor a intensidade trágica e a arrojada dramaticidade de Callas à perfeição técnica e ao timbre celestial de Tebaldi. Esse antagonismo público jamais foi uma fonte de intrigas nos bastidores. Funcionou como um catalisador de excelência artística; impulsionadas pelo desejo mútuo de superação, ambas elevaram o nível de suas performances a patamares estratosféricos. Curiosamente, essa inimizade de proporções operísticas escondia um profundo respeito tácito, culminando em uma célebre e emocionante reconciliação nos anos 1970 – provando que, no altar da grande arte, a rivalidade e a grandeza criativa eram duas faces da mesma moeda. Restar-nos-ia perguntar, contudo, se essa mesma animosidade feroz e a aparente rivalidade irreconciliável não constituiriam, no fundo, um mal necessário para a própria sobrevivência da excelência artística. Impulsionadas pelo rancor recíproco e pelo desejo inesgotável de sobrepujar a oponente, Callas e Tebaldi transformaram o atrito em um motor criativo sem igual, onde a sombra da rival servia de alento para que cada qual alcançasse o cume absoluto de sua genialidade; afinal, em um universo tão hermético quanto o da ópera, a ausência do antagonista perfeito talvez esvaziasse o ímpeto da superação, provando que, no altar da alta cultura, o veneno do conflito é, paradoxalmente, o néctar que alimenta a imortalidade dos grandes artistas.
(em 09/26)


















