Por André Rodrigues Costa Oliveira
O fato ocorreu na terça-feira, dia 25 de agosto de 2026, nas dependências do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, no centro do Rio de Janeiro.
Há episódios que não revelam apenas a violência de alguns indivíduos, mas a falência momentânea de uma cultura inteira. Quando uma instituição de ensino superior se transforma em cenário de perseguição, espancamento e humilhação pública, não está ocorrendo simplesmente uma briga entre estudantes. Nega-se, no caso, a precípua finalidade da universidade: estudar, pesquisar, investigar antes de afirmar e de condenar, argumentar antes de agredir e submeter conflitos à razão, às regras e às garantias mínimas de dignidade.
O caso em questão envolve um estudante que compareceu a uma aula usando uma camiseta associada a uma banda de rock. E a roupa desse estudante também vinha acompanhada de um broche que, segundo o próprio estudante, tinha sentido cabalmente antinazista, e de fato tinha: era um broche com uma suástica na qual estava sobreposto um “xis”, daqueles tipo “proibido estacionar”, “proibido fumar” etc, que a gente vê todos os dias. Só que o significado da combinação, para várias das demais pessoas ali presentes, foi profundamente ofensivo.
O estudante então foi cercado, retirado do ambiente acadêmico e agredido brutalmente por inúmeros outros alunos. As imagens divulgadas na imprensa mostram claramente a perseguição, os golpes e a violência continuada mesmo depois de a situação já ter se convertido em puro linchamento ao aluno, tanto físico quanto psicológico. Mas há um ponto que não depende da conclusão do inquérito: nenhuma acusação, mesmo de nazismo (o que, reitere-se, era totalmente improcedente) concede a particulares o direito de espancar alguém.
A ignorância dos símbolos e o fracasso do ambiente acadêmico
A oposição ao nazismo não pode ser apenas uma palavra de ordem; precisa ser também uma prática civilizatória. O nazismo foi uma ideologia abominável de extermínio, racismo, perseguição política e destruição deliberada da dignidade humana. Combatê-lo exige memória histórica, conhecimento, letramento, cultura e compromisso com os direitos fundamentais – tudo o que os alunos-espancadores da UFRJ não possuem. Transformar essa luta em licença para a violência é uma contradição brutal. Quem alega defender a civilização contra a barbárie não pode reproduzir, em escala menor e sob outro pretexto, a lógica da turba que escolhe um inimigo, abandona as provas nas salas de aula e celebra sua destruição absoluta – isso sim é coisa de nazista.
Mais perturbadora ainda é a ignorância demonstrada por pessoas que estavam em um ambiente dedicado ao estudo da História, da Filosofia e das Ciências Sociais. Símbolos têm contextos, trajetórias e camadas de significado. Uma caveira usada por tropas nazistas pode ser reutilizada sim por movimentos musicais (conheço vários, inclusive), grupos contraculturais, religiões, faculdades de medicina, esculturas, pinturas, peças de teatro (vide a famosa passagem da caveira no Ato V, quando Hamlet retorna à Dinamarca depois de sua viagem à Inglaterra, mas aí já é William Shakespeare, não dá pra exigir muito desses baderneiros) ou até mesmo por artistas que pretendem provocar, ironizar ou criticar diretamente o fascismo.
Aliás, burrinhos violentos da UFRJ, se considerarmos o gênero Homo de forma mais ampla (o que inclui antepassados e espécies humanas ancestrais, como o Homo erectus ou parentes próximos), existem crânios/caveiras que datam de 2 milhões de anos, a exemplo de achados importantes na África e na Ásia. Pesquisem. E, quanto ao nazismo que vocês acreditam piamente que combatem, só lembrando um pouquinho, surgiu há menos de 100 anos. Interpretação, pessoal, exige investigação. Uma universidade que não consegue distinguir entre a presença de um símbolo, seu uso, sua intenção e seu contexto fracassa justamente naquilo que deveria ensinar.
A ignorância, nesse episódio, não está apenas em desconhecer a história dos símbolos. Está em acreditar que a própria impressão equivocada equivale à prova. Está em confundir indignação com competência, suspeita com certeza e denúncia com condenação. Está em imaginar que gritar mais alto, cercar o acusado ou reunir uma multidão produz alguma justiça. Não produz porra de justiça nenhuma. Produz medo, humilhação, lesões e a substituição do Estado de Direito por uma forma rudimentar de vingança coletiva.
A omissão covarde dos docentes e a seletividade ideológica
Também é necessário falar dos professores e das autoridades acadêmicas. Não se deve atribuir individualmente a todos os docentes atos que ainda precisam ser apurados, isso é evidente; tampouco é correto afirmar, sem prova, que todos participaram ou aprovaram a agressão, embora dezenas deles tenham assinado no dia seguinte uma nota de repúdio não ao incidente, mas, acreditem, ao aluno espancado (!). Mas a responsabilidade institucional dos adultos que educam, supervisionam e dirigem uma comunidade universitária é incontornável. Professores não estão em sala apenas para transmitir conteúdos. Eles têm o dever de interromper escaladas de violência, proteger estudantes, acionar os canais competentes e impedir que acusações se convertam em tribunal improvisado.
Se docentes viram um aluno ser retirado à força, cercado ou perseguido e não conseguiram – ou não quiseram – interromper imediatamente a dinâmica da turba, houve uma falha pedagógica e moral de enorme gravidade e, em qualquer país decente, essa galera – tanto os alunos-agressores quanto os professores, seguranças e demais funcionários presentes – já teriam sido expulsos, banidos da instituição de ensino. Se algum professor estimulou a exposição, tratou a agressão como espetáculo ou ensinou, por ação ou omissão, que certos suspeitos podem ser privados de proteção, a falha é ainda mais profunda. Um educador que abandona o aluno à multidão deixa de exercer sua função no momento em que ela se torna mais necessária. Que tipo de corpo docente é esse que ratifica a violência gratuita e covarde? Aliás, eu sei muito bem que tipo é esse corpo docente, e quem está me lendo agora também sabe. É o mesmo pessoal que se “esquece” de citar em aula que um outro regime, igualmente infame e assassino, chamado de socialismo/comunismo matou muitas dezenas de milhões de seres humanos a mais do que o nazismo. Todo mundo sabe que um gulag soviético ou uma prisão na China de Mao-Tse-Tung ou até aqui em Cuba ou na Venezuela praticou atrocidades – mas ninguém comenta.
O papel da universidade não é proteger símbolos nazistas, racistas ou antissemitas. É perfeitamente legítimo – e necessário – denunciar apologia ao nazismo, manifestações de ódio e ameaças contra grupos vulneráveis e eu sou plenamente a favor disso. A legislação e os protocolos institucionais existem precisamente para que tais denúncias sejam investigadas com seriedade. O erro monstruoso está em substituir esses procedimentos pela punição física e moral executada pela canalha, pelos putos (como dizem os portugueses), pela plebe, pela massa, pela gentalha, ralé, populacho, escória, choldra, canícula, corja, choldrica ou pela chusma – daí vocês, da UFRJ, vão até o dicionário e aprendam.
O tribunal da multidão e o entretenimento da crueldade
A defesa dos direitos humanos não pode depender da simpatia que sentimos pela pessoa acusada. Direitos fundamentais existem justamente para proteger também quem é impopular, inconveniente, provocador ou objeto de repulsa coletiva. E por que eu digo isso?
Porque há uma diferença abissal entre retirar alguém de uma situação de risco, preservar a segurança da comunidade e promover uma agressão infame. Há também uma enorme diferença entre contestar publicamente uma mensagem e perseguir uma pessoa pelas escadas e pela rua. O primeiro conjunto de ações pode ser legítimo, desde que proporcional e conduzido pelos responsáveis. O segundo já é violência coletiva, pura e simplesmente. A multidão não é mais justa por ser numerosa, e a indignação não se torna mais nobre porque é acompanhada por palavras moralmente corretas. Isso chama-se hipocrisia. Não tem outro nome.
Ah, e teve mais ainda: a reação posterior nas redes sociais, com comemoração da dor e comentários celebrando o sofrimento do agredido, revela outro estágio de degradação abjeta. O linchamento físico é acompanhado por um linchamento simbólico nas redes e nos grupos de mensagens: a vítima é desumanizada, reduzida a um rótulo e apresentada como alguém que “merecia” ser ferido. Essa linguagem é extremamente perigosa uma vez que transforma a violência em entretenimento e ensina observadores mais jovens que a crueldade pode ser virtuosa quando dirigida contra o alvo supostamente “adequado”, coisa que quem fazia eram os nazistas e os comunistas, esse pessoal aí da camiseta do Guevara, com bandeira vermelha e dotado de um retardamento cognitivo espantoso. Uma comunidade acadêmica – tanto alunos como professores – deveria combater exatamente essa pedagogia da desumanização, e não reproduzi-la.
O resgate do estudo e a verdadeira provação da Democracia
Penso eu que a resposta adequada ao episódio deve combinar investigação independente, responsabilização individual, proteção às vítimas, apuração de eventuais crimes de ódio e revisão dos protocolos de segurança. Também deve incluir formação histórica e ética. Não basta distribuir comunicados genéricos contra a violência; é preciso ensinar como reconhecer símbolos extremistas, como avaliar contexto, como acolher denúncias e como agir diante de conflitos sem transformar estudantes em ditadores, investigadores, policiais, juízes e executores ao mesmo tempo.
Uma universidade digna desse nome – e da qual eu mesmo também já fui aluno – tem que ser um espaço onde até as ideias repulsivas possam ser examinadas criticamente, desde que não se confundam expressão com ameaça ou propaganda criminosa. Quando houver indícios de crime, deve-se chamar a autoridade competente. Quando houver dúvida, deve-se investigar. Quando houver risco imediato, deve-se intervir para proteger as pessoas. Em nenhuma dessas etapas cabe o tal do linchamento.
E reitero: a brutalidade do episódio não se vê apenas nos golpes desferidos. Ela está na arrogância e na mediocridade de quem acreditou possuir o direito de condenar sem prova; na ignorância de quem confundiu símbolo com sentença; na covardia de quem se protegeu na multidão; e na possível omissão daqueles que deveriam ter ensinado, pelo exemplo, que a razão não pode ser abandonada justamente quando a emoção se torna mais intensa.
Gente, combater o nazismo requer muito mais do que rejeitar a sua estética, essa é a parte fácil. Requer rejeitar a desumanização, o culto à força, a eliminação do contraditório e a crença de que algumas pessoas podem ser tratadas como inimigos sem direitos.
Aliás, antes de qualquer coisa: leia George Orwell, Aleksandr Soljenitsin, Karl Popper, Raymond Aron, Vasili Grossman, Robert Conquest, Timothy Snyder, Arthur Koestler, Friedrich Hayek, Ian Kershaw e, principalmente, Hannah Arendt, começando pela sua obra magna intitulada As Origens do Totalitarismo, publicada em 1951, na qual a filósofa desconstrói a anatomia dos regimes totalitários do século XX. Estudar também ajuda muito, gente; não é só o vídeo do Tik-Tok e a ideologização política-identitária e que se diz “do amor” que há de transformar alguém em uma criatura verdadeiramente pensante.
Se uma comunidade universitária pretende defender a Democracia, deve começar por reconhecer que a Democracia não é testada quando todos concordam conosco. Ela é testada quando alguém nos provoca, nos ofende, nos assusta ou parece representar tudo aquilo que odiamos. É nesse momento que a obrigação de permanecer humano se torna mais difícil – e mais indispensável.
(em 08/26)



















