Wagner Gomes
O Congresso brasileiro opera sob um princípio silencioso: quando há unanimidade, raramente é por altruísmo. A história recente mostra que votações com apoio esmagador costumam coincidir com interesses diretos da própria classe política.
O exemplo mais eloquente foi o movimento para afrouxar a Lei da Ficha Limpa, reduzindo restrições que impediam candidaturas de condenados, com convergência quase total. Quando o assunto é autopreservação, ideologias evaporam.
Outros episódios reforçam o padrão. O Congresso aprovou sucessivos aumentos do fundo eleitoral e elevou bilhões de reais em recursos públicos para campanhas. Derrubou ou flexibilizou medidas que limitariam privilégios, como tentativas mais rigorosas de restringir o foro privilegiado.
Em contraste, propostas de interesse difuso ou público, na acepção verdadeira — como reformas administrativas profundas, redução estrutural de gastos ou simplificação tributária consistente — enfrentam anos de paralisia ou nascem mutiladas.
O interesse coletivo exige debate; o interesse corporativo, urgência, de preferência sem debate.
O custo dessa engrenagem é elevado. Estudos da própria Câmara indicam que cada deputado federal custa mais de R$ 200 mil mensais, somando salário, assessores, verbas e estrutura. Como o cálculo é da Câmara, obviamente não entram os desvios. Trata-se de uma elite custeada por uma nação ainda marcada por carências básicas.
A contradição é evidente: o país que economiza na escola e no hospital raramente economiza no político. Mais revelador ainda é o comportamento legislativo: parlamentares de campos opostos votam juntos com frequência quando a pauta envolve prerrogativas institucionais ou benefícios indiretos.
O antagonismo ideológico, tão inflamado nas redes e nos palanques, dissolve-se discretamente no painel eletrônico. Enquanto isso, a população é convocada às ruas como tropa simbólica, mobilizada por palavras de ordem que prometem redenção nacional.
A política transforma cidadãos em torcidas, não em fiscais. E torcidas não auditam contas; apenas aplaudem ou vaiam. A maturidade democrática começa quando o eleitor abandona a devoção e adota a vigilância.
Nenhum mandato é um salvo-conduto moral; é uma concessão temporária. Quando a sociedade compreender que representantes são empregados — e não ídolos —, a lógica se inverterá.
O Congresso deixará de ser uma fábrica que vende ilusões e passará a ser, finalmente, uma oficina de responsabilidade pública.




