Por Márcio Antunes (*)
A eleição presidencial de 2026 começou uma fase diferente. Até aqui, muita coisa foi tratada apenas como tendência. A partir de agora, será preciso separar tendência de realidade, patrimônio eleitoral de intenção momentânea de voto e, sobretudo, entender o comportamento daquele eleitor que ainda não se considera definitivamente pertencente a nenhum dos dois grandes polos.
É justamente esse eleitor que pode decidir a eleição.
O quadro nacional, neste momento, apresenta uma situação que merece atenção: Lula e Flávio Bolsonaro chegaram ao segundo turno praticamente empatados em algumas das pesquisas mais recentes.
Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto, Lula aparecia com 43% contra 40% de Flávio no segundo turno, dentro da margem de erro. Na pesquisa BTG/Nexus divulgada poucos dias depois, o cenário também era de empate técnico. Já a CNT/MDA apontava vantagem maior para Lula. Ou seja: há uma liderança numérica em algumas pesquisas, mas não existe uma distância que permita tratar o resultado como definido.
E talvez essa seja a principal conclusão desta visão inicial: a eleição presidencial deixou de ser uma disputa em que um dos lados pode simplesmente administrar uma vantagem. Será uma eleição de conquista.
A guerra não será apenas pelos votos. Será pela rejeição.
Há um elemento ainda mais importante do que a intenção de voto: a rejeição. Lula chega a 2026 carregando uma trajetória política de décadas, quatro disputas presidenciais vencidas e uma enorme capacidade de mobilização eleitoral. Mas também chega carregando uma rejeição consolidada em uma parcela significativa do eleitorado.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem a vantagem de representar a continuidade do campo político construído pelo seu pai, Jair Bolsonaro. Por ironia do destino essa é ao mesmo tempo sua maior força e sua maior vulnerabilidade: herda uma identidade política extremamente forte mas de quebra vem junto a rejeição ao bolsonarismo.
É por isso que considero inadequado analisar esta eleição apenas pela questão de “quem está na frente de quem?”. A pergunta mais importante é: qual dos dois candidatos consegue conquistar os eleitores que não gostam suficientemente do adversário para votar nele?
Esse eleitor existe em quantidade relevante. E a própria campanha já percebeu isso. No jargão do marketing eleitoral é o chamado eleitor-pêndulo, que pode decidir o segundo turno para o lado que inclinar.
O segundo turno começa antes do primeiro
Outra peculiaridade desta eleição é que, m Mesmo com vários candidatos no primeiro turno, a disputa política já está polarizada em torno de Lula e Flávio Bolsonaro.
Os demais candidatos estão neste momento em busca do chamado recall, exposição que querendo ou não fortalece suas imagens como candidatos a outros cargos daque a dois anos.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e os demais candidatos vão ter maior importancia só a pçartir do segundo turno, quando, quanto maior for a força eleitoral de cada um deles , maior será a possibilidade de modificar a composição passando a apoiar Lula ou Flávio.
E Minas Gerais? O papel do estado na disputa nacional
Em Minas a análise fica ainda mais interessante. Historicamente nosso Estado tem uma importância simbólica e eleitoral enorme porque reúne características que tornam seu eleitorado particularmente relevante para uma disputa presidencial: tamanho, diversidade regional, peso econômico e uma tradição de escolhas políticas menos previsíveis.
E há um fenômeno que merece ser acompanhado: a eleição presidencial e a eleição para o governo de Minas podem estar produzindo comportamentos diferentes.
Enquanto Lula e Flávio disputam palmo a palmo o eleitor nacional, a corrida pelo Palácio Tiradentes apresenta hoje uma vantagem muito significativa para Cleitinho Azevedo: na pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, Cleitinho tinha 32% das intenções de voto para governador. Patrus Ananias e Alexandre Kalil apareciam com 12% cada. Poucos dias depois, a Quaest encontrou cenário semelhante: Cleitinho com 29%, Patrus com 11%, Kalil com 10%, Mateus Simões com 7% e Gabriel Azevedo com 5%.
Não é apenas uma liderança. É uma liderança com uma vantagem considerável em relação ao segundo pelotão.
Mas há uma armadilha nessa leitura
Seria um erro concluir que Cleitinho possui hoje 30% ou mais de votos consolidados. A pesquisa Datafolha mostra justamente o contrário: na pergunta espontânea, Cleitinho aparece com apenas 15%, enquanto 64% dos entrevistados ainda não indicam candidato.
Esse número é fundamental. Ele mostra que a eleição mineira ainda possui uma enorme quantidade de espaço aberto. Cleitinho começa a corrida em posição privileged, mas não terminou a corrida.
O que temos hoje é liderança, não eleição ganha.
Cleitinho tem patrimônio próprio?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da eleição mineira. Não devemos simplesmente somar o eleitorado de Flávio Bolsonaro ao eleitorado de Cleitinho. São patrimônios diferentes.
Existe, evidentemente, uma interação entre eles. Mas a política não funciona como uma conta matemática simples. Cleitinho construiu uma marca própria ao longo de sua trajetória política. Seu discurso, sua exposição nas redes sociais, sua atuação como senador e sua identificação com o eleitor conservador produziram uma base própria.
Ao mesmo tempo, sua candidatura está inserida no campo político que hoje tem Flávio Bolsonaro como principal referência nacional. Isso pode ajudá-lo, mas também pode criar uma dependência. O eleitor mineiro votará em Flávio e Cleitinho como um pacote político ou fará escolhas diferentes?
Patrus, Kalil e a dificuldade do campo adversário
O principal problema do campo que hoje se opõe a Cleitinho não parece ser apenas a falta de um nome. É a dispersão.
Patrus aparece com 11% na Quaest e 12% no Datafolha. Kalil tem 10% e 12%, respectivamente. Mateus Simões aparece com 7% na Quaest. Existe um enorme espaço entre o líder e o segundo pelotão, mas esse espaço não pertence automaticamente a ninguém.
O Norte de Minas merece um capítulo à parte
Minas não é eleitoralmente homogênea. O Norte de Minas, o Jequitinhonha, o Triângulo, a Zona da Mata, a Região Metropolitana e o Sul do Estado possuem comportamentos políticos diferentes.
No Norte de Minas, questões como infraestrutura, saúde, segurança, água, estradas, emprego e presença efetiva do Estado possuem peso enorme. E há uma característica política importante: a identificação ideológica nacional não explica sozinha o voto regional.
Um eleitor pode votar em determinado candidato à Presidência e escolher outro para governador, senador ou deputado. Essa separação de votos será uma das grandes questões de 2026.
A eleição pode ser decidida pelo voto cruzado
Essa é uma das minhas principais hipóteses para esta eleição. Não acredito que devamos imaginar o eleitor mineiro como alguém que receberá uma “chapa pronta” e simplesmente apertará os mesmos campos em todas as telas da urna.
A tendência pode ser de voto cruzado: um eleitor pode escolher Lula para presidente e Cleitinho para governador. Outro pode votar em Flávio para presidente e escolher outro candidato para governador. Um terceiro pode escolher um candidato de centro para presidente e Cleitinho para o governo estadual.
Minas como o laboratório da eleição brasileira
No plano nacional, Lula e Flávio disputam um eleitorado dividido em dois grandes campos enquanto no plano estadual Cleitinho aparece muito à frente dos adversários.
Isso levanta duas questões fundamentais:
A força de Cleitinho pode ajudar o campo de Flávio em Minas?
Ou a força de Cleitinho será predominantemente estadual, sem produzir uma transferência equivalente para a disputa presidencial?
O painel Minas News de acompanhamento: 6 indicadores chave
Para não cair na armadilha de analisar a eleição pela manchete de cada pesquisa o Minas News vai acompanhar considerando seis indicadores permanentemente:
- Lula × Flávio no segundo turno: Nosso indicador principal.
- Rejeição de Lula × Flávio: A eleição pode ser decidida mais pela rejeição do adversário do que pela paixão pelo próprio candidato.
- Primeiro turno presidencial: Observar não apenas quem cresce, mas de onde vem o crescimento.
- Lula e Flávio em Minas Gerais: Minas acompanhada separadamente do resultado nacional.
- Corrida para o governo de Minas: Onde Cleitinho parte de uma posição favorável nas pesquisas atuais.
- Diferença entre Minas e o Norte de Minas: O Norte de Minas não pode ser tratado como extensão do Sul de Minas ou da Região Metropolitana de BH, por exemplo.
A fotografia de hoje
Se fosse preciso resumir o cenário em uma única frase o correto seria que a eleição presidencial está aberta; a eleição para o governo de Minas tem um líder claro, mas ainda está longe de estar decidida.
Lula e Flávio chegam à disputa buscando o centro de um eleitorado dividido. Flávio precisa provar que consegue ultrapassar a fronteira do bolsonarismo e conquistar eleitores que gostam dele, mas não se identificam integralmente com o movimento. Lula precisa provar que ainda consegue ampliar sua maioria para além de sua base histórica e reduzir a rejeição suficiente para vencer um segundo turno apertado.
Em Minas, Cleitinho precisa transformar vantagem em consolidação de liderança. Seus adversários precisam transformar dispersão em uma candidatura competitiva. C
Mais importante do que perguntar “quem vai ganhar?” será acompanhar quem está conseguindo mudar de posição para melhor. Porque lembrando o ex-governador Magalhães Pinto eleição é igual nuve, você olha está de um jeito, olha de novo e já mudou.
Eleição é movimento e, em 2026 o movimento apenas começou.
(*) Jornalista editor do Minas News, publicitário e especialista em marketing político e eleitoral.




















