Houve um tempo em que ensinar uma criança a viver significava, antes de tudo, ensinar-lhe a distinguir. Distinguir o bem do mal. A verdade da mentira. A coragem da covardia. A justiça da injustiça. Era assim que começava a formação de uma criança.
Lembro-me de uma época em que, tão logo começavam a soletrar as primeiras palavras, as crianças recebiam das mães zelosas as coleções de contos de fadas. Pareciam apenas histórias infantis. Mas não eram. Por trás do príncipe e do lobo mau, havia uma lição. Por trás da bruxa e da princesa, havia uma escolha. Por trás da mentira e da verdade, havia uma consequência.
A criança aprendia, de forma simples e quase subliminar, uma das maiores verdades da existência humana: a vida é feita de escolhas. Era o nosso primeiro “bê-á-bá” moral. Sem grandes discursos. Sem teorias complicadas. Sem especialistas dizendo às famílias como deveriam educar seus filhos. A própria cultura transmitia valores. E esses valores ajudavam a formar homens e mulheres capazes de compreender que nem tudo é relativo.
A armadilha do relativismo
Com o passar das décadas, entretanto, alguma coisa mudou. A chamada modernidade, acompanhada por profundas transformações culturais, começou a introduzir dentro das famílias uma nova maneira de enxergar o mundo. Tudo passou a ser relativo. A verdade tornou-se “a minha verdade”. A moral passou a depender da circunstância. O certo e o errado começaram a ser negociados conforme a conveniência.
E aquilo que durante séculos havia sido sustentado pela razão, pela experiência, pela filosofia e pela fé começou a ser substituído por uma palavra aparentemente elegante, mas perigosamente vazia: relativismo. Se tudo é relativo, então nada é verdadeiramente certo. Se tudo depende do ponto de vista, então qualquer comportamento pode ser justificado. Se não existe verdade, não existe erro. E se não existe erro, qualquer coisa pode ser aceita.
É aí que começa a decadência de uma sociedade. Porque uma civilização não desaparece apenas quando perde suas riquezas. Ela começa a morrer quando perde a capacidade de distinguir.
O homem morno e a falsa tolerância
Nos últimos anos, essa mentalidade avançou ainda mais. Criou-se uma espécie de culto à neutralidade. Não tomar posição passou a ser considerado sinal de inteligência. Não contrariar ninguém passou a ser chamado de equilíbrio. Não defender princípio algum passou a ser confundido com tolerância.
E assim nasceu o personagem mais conveniente do nosso tempo: o homem morno. O homem que não quer ser contra ninguém. O homem que não quer desagradar ninguém. O homem que aplaude todos. Que elogia todos. Que concorda com todos. Que muda de opinião conforme muda a companhia.
Ele não quer saber necessariamente o que é certo. Quer saber apenas o que é conveniente. Não procura a verdade. Procura aceitação. Não defende princípios. Defende relações. E, quando chega o momento de escolher, olha para os dois lados e pergunta: “Qual posição será melhor para mim?”
Conheci muitas pessoas assim. Pessoas que, ao longo do tempo, foram abandonando suas próprias convicções para sobreviver socialmente. Em qualquer ambiente, procuram os aplausos. Gostam dos elogios. Precisam estar bem com todos. Nas rodas sociais, religiosas, comunitárias e políticas, evitam o confronto. Discordar passou a ser um problema. Questionar passou a ser uma ofensa. Defender princípios passou a ser chamado de radicalismo.
E assim, pouco a pouco, o homem deixa de pensar por si mesmo. Quando abandona a própria inteligência, começa a seguir a multidão. É o velho fenômeno da “Maria vai com as outras”. Só que agora com uma aparência sofisticada. Com palavras bonitas. Com discursos elaborados. Com justificativas intelectuais. Mas, no fundo, é a mesma coisa: a incapacidade de pensar e a falta de coragem para escolher.
A neutralidade não existe
Lembro-me de um professor que certa vez explicou que a neutralidade absoluta não existe no comportamento humano. Ele usava uma comparação simples: a eletricidade é positiva ou negativa. Pode-se até tentar esconder a polaridade, mas ela continua existindo. Na vida também é assim. Chega uma hora em que somos obrigados a escolher. E é justamente nesse momento que conhecemos verdadeiramente uma pessoa. Não quando tudo está tranquilo. Não quando todos aplaudem. Mas quando defender uma convicção pode trazer consequências. É aí que aparece o caráter. É aí que descobrimos quem é quente, quem é frio e quem prefere permanecer morno.
E aqui está uma das mais impressionantes advertências das Sagradas Escrituras: “Porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” É uma frase dura. Mas talvez poucas frases sejam tão atuais.
Porque o morno não incomoda ninguém. O morno não enfrenta ninguém. O morno não se compromete. O morno está sempre procurando uma porta de saída. E talvez seja exatamente por isso que ele seja tão perigoso. Porque uma sociedade não é destruída apenas pelos seus inimigos. Às vezes, ela também é enfraquecida por aqueles que sabem que algo está errado, mas preferem permanecer calados.
Há poucos dias, assisti à entrevista de um escritor que possui vários livros publicados — alguns deles, inclusive, que tive o prazer de ler. Em determinado momento, ele defendia uma espécie de unidade absoluta, sem rivalidades, na qual a neutralidade deveria prevalecer. Confesso que senti uma profunda decepção. Não porque esperasse que ele pensasse exatamente como eu. Mas porque esperava dele algo muito mais valioso: coragem intelectual.
Naquele momento, percebi como alguém pode escrever muitos livros e, ainda assim, revelar-se pequeno diante de uma escolha. Porque conhecimento sem coragem pode transformar-se apenas em erudição. E erudição sem princípios pode servir a qualquer lado.
O momento decisivo e a força dos princípios
Estamos vivendo um momento decisivo da história política deste país. E talvez não tenhamos percebido a dimensão da responsabilidade que pesa sobre nossos ombros. O futuro dos nossos filhos e netos não será decidido apenas nos palácios de Brasília. Será decidido também dentro de nossas casas. Nas escolas. Nas igrejas. Nas famílias. Nas conversas. Nas escolhas silenciosas de cada cidadão.
De um lado, vemos aquilo que muitos identificam como uma decadência moral e uma relativização dos princípios. Do outro, estão aqueles que ainda acreditam que alguns valores não podem ser negociados. A família. A fé. A tradição. A responsabilidade. O respeito. A liberdade. A dignidade humana. Os bons costumes.
Não estou falando de homens perfeitos. Eles não existem. Estou falando de princípios. Porque homens passam. Governos passam. Partidos passam. Ideologias passam. Mas os princípios permanecem.
E quando uma sociedade abandona seus princípios para agradar às circunstâncias, ela perde o rumo. Por isso, se queremos um futuro diferente para nossos filhos, precisamos recuperar uma palavra que parece ter desaparecido do vocabulário moderno: CORAGEM. Coragem para dizer não. Coragem para discordar. Coragem para pensar. Coragem para defender a verdade. Coragem para permanecer de pé quando todos estão se ajoelhando diante da conveniência.
A filosofia do muro
Recordo-me de uma campanha que realizávamos contra a reforma agrária. Um fazendeiro decidiu contribuir com a campanha. Doou um bezerro para ajudar nas despesas. Era uma contribuição significativa. Mas, depois de ajudar, fez uma ressalva: “Já estou ajudando, mas não precisa mencionar meu nome.”
A frase ficou guardada na minha memória. Porque aquele pequeno episódio traduz, de certa maneira, um comportamento que encontramos tantas vezes na vida. A pessoa quer participar. Quer ajudar. Quer estar presente. Mas não quer ser identificada. Quer a satisfação de ter feito alguma coisa, mas não quer carregar o peso da responsabilidade. Quer defender uma posição, mas não quer pagar o preço de defendê-la. É a política do anonimato. É a filosofia do muro. É o comportamento daquele que espera que a história seja escrita pelos outros, para depois descobrir de que lado deveria ter ficado.
Mas a história não é feita pelos que permanecem eternamente em cima do muro. A história é feita pelos que têm coragem de descer dele. Por homens e mulheres que, diante das circunstâncias, dizem: “Eu escolhi.”
E talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer hoje. Não aos políticos. Não aos jornalistas. Não aos escritores. Não aos líderes. Mas a nós mesmos. De que lado estamos?
Porque chegará o momento em que não será possível permanecer no meio. Não será possível agradar a todos. Não será possível esconder-se atrás da palavra “neutralidade”. A vida cobrará uma resposta. A história cobrará uma resposta. E, para aqueles que têm fé, Deus cobrará uma resposta.
Entre o bem e o mal, será preciso escolher. Entre a verdade e a mentira, será preciso escolher. Entre a coragem e a covardia, será preciso escolher. Entre a razão e o relativismo, será preciso escolher. Entre defender aquilo em que acreditamos ou simplesmente seguir a multidão, será preciso escolher. Não escolher também é uma escolha.
Caráter aparece quando escolher tem um preço
Por isso, leitor, faço-lhe uma última pergunta: Em que momento você define a sua personalidade? Quando todos concordam com você? Quando ninguém o critica? Quando sua opinião não lhe traz nenhum risco? Ou quando chega o momento em que defender aquilo em que acredita pode lhe custar alguma coisa?
É nesse momento que descobrimos quem somos. Porque caráter não aparece quando escolher é fácil. Caráter aparece quando escolher tem um preço.
Talvez esteja na hora de abandonar a mornidão. Talvez esteja na hora de ensinar novamente às nossas crianças que existe o bem e existe o mal. Que existe verdade e existe mentira. Que existe certo e existe errado. Que existem coisas que podem ser negociadas — e outras que jamais deveriam ser.
Talvez esteja na hora de recuperar a coragem de dizer: “Eu penso.” “Eu escolho.” “Eu assumo.”
Porque um povo que perde a capacidade de distinguir o bem do mal perde também a capacidade de escolher o próprio destino. E quando um povo deixa de escolher o seu destino, alguém escolherá por ele.
Por isso, Montes Claros, esta não é uma hora para ficar em cima do muro. Não é hora de ser morno. É hora de acordar. É hora de pensar. É hora de escolher.
QUENTE OU FRIO! Mas nunca morno.
ACORDA, MONTES CLAROS!





















