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A DEMAGOGIA POLÍTICA LOCAL!

Entre promessas eleitorais, interesses partidários e a ausência de um projeto para Montes Claros

Há algumas décadas, quem acompanha a política de Montes Claros percebe um fenômeno que parece resistir ao tempo: um jogo de cartas marcadas, no qual as peças mudam de lugar, mas os interesses permanecem praticamente os mesmos.

Em muitos partidos, a direção parece ter dono. Lideranças se perpetuam no comando, alternando cadeiras, cargos e posições estratégicas, enquanto os interesses pessoais, o prestígio e o status são apresentados à população como verdadeiras missões de salvação pública.

O financiamento partidário, as alianças e as conveniências políticas frequentemente pesam mais do que a capacidade de formular projetos, discutir o futuro da cidade e apresentar resultados concretos.

E a população? Observa. Reclama. Desconfia. Mas, muitas vezes, permanece distante das urnas. O silêncio de uma parcela expressiva do eleitorado, que ultrapassa 100 mil pessoas, não comparece no dia da votação.

A política local, entretanto, não deveria ser um palco de vaidades, mas um instrumento de transformação.

QUANDO O CARGO VIRA ESCADA ELEITORAL

É nesse cenário que merece atenção o comportamento de alguns vereadores eleitos que, antes mesmo de apresentarem resultados consistentes no Legislativo municipal, já se lançam à disputa por cargos de maior projeção.

A pergunta é inevitável: que legado estão deixando para Montes Claros antes de pedir ao eleitorado a oportunidade de representá-lo em outras esferas?

Quantos projetos estruturantes apresentaram? Quantas propostas capazes de transformar a economia, a mobilidade urbana, a infraestrutura ou a geração de empregos foram efetivamente defendidas e acompanhadas?

Ou será que a proximidade com o Poder Executivo, a presença em solenidades e a distribuição de pequenas benesses passaram a ser confundidas com trabalho político?

Há quem pareça acreditar que a simples ocupação de uma cadeira na Câmara Municipal seja suficiente para credenciar alguém a qualquer cargo público.

É como se um aluno que mal concluiu o ensino fundamental decidisse prestar vestibular para Medicina. A comparação pode parecer exagerada, mas serve para ilustrar uma realidade: não há como reivindicar voos maiores sem demonstrar preparo, competência e resultados na etapa anterior.

Na iniciativa privada, ninguém investe milhões em um empreendimento baseado apenas em discursos, simpatia ou promessas. Existem estudos de viabilidade, planejamento, metas e avaliação de resultados.

Por que deveria ser diferente na política?

O dinheiro público pertence à sociedade. O futuro de uma cidade não pode ser entregue a aventureiros, bajuladores ou profissionais da promessa fácil.

CANDIDATURAS E A AUSÊNCIA DE UM PROJETO DE CIDADE

Diante do movimento eleitoral que se desenha, algumas candidaturas merecem uma reflexão mais cuidadosa.

Maria Helena: uma candidatura que precisa apresentar resultados

A vereadora Maria Helena surge como candidata à vice-governadoria de Minas Gerais.

É legítimo que qualquer cidadão com trajetória política aspire a novos desafios. Mas uma candidatura dessa dimensão deveria vir acompanhada de respostas objetivas.

Qual foi o grande projeto de desenvolvimento para Montes Claros defendido pela vereadora durante sua atuação no Legislativo?

Além do atendimento de demandas pontuais, especialmente na área rural, que proposta estruturante foi apresentada para transformar a economia do município?

E, olhando para o Norte de Minas, qual é o projeto capaz de reduzir as desigualdades regionais, atrair investimentos, ampliar a industrialização e gerar oportunidades para a população?

Existe, há muitos anos, a discussão sobre a criação da Região Metropolitana de Montes Claros, associada a articulações políticas que envolvem o deputado Tadeuzinho e outras lideranças. Trata-se de uma pauta que merece ser retomada, debatida e, sobretudo, transformada em uma proposta concreta.

Se há um projeto engavetado há mais de 15 anos, por que não retirá-lo da gaveta e apresentá-lo à sociedade?

O eleitor precisa de mais do que fotografias, discursos e promessas. Precisa conhecer o projeto.

Candidaturas a deputado federal: promessas ou projetos?

No campo das candidaturas a deputado federal, nomes como Iara Pimentel, PC Landim e Carol Figueiredo também suscitam questionamentos sobre a consistência das propostas apresentadas.

A política parece, muitas vezes, transformar-se em um espetáculo de bravatas. Surgem discursos grandiosos, imagens cuidadosamente produzidas e promessas para todos os gostos.

Uns anunciam espaços para festividades. Outros prometem ônibus para atender demandas específicas. Há aqueles que se dedicam a discursos religiosos e mensagens sentimentais. E existem, ainda, os que afirmam que farão isso ou aquilo, sem explicar como, quando e com quais recursos.

Não se trata de desmerecer a importância de uma praça, de um espaço comunitário ou de qualquer atendimento social. Essas demandas podem ser legítimas e necessárias.

O problema surge quando pequenas ações pontuais são apresentadas como se fossem um grande projeto de desenvolvimento regional.

Montes Claros precisa de deputados capazes de defender investimentos estruturantes, lutar pela expansão industrial, fortalecer a saúde regional, melhorar a logística, ampliar a educação profissional e inserir o Norte de Minas em uma agenda nacional de desenvolvimento.

A cidade não pode se contentar eternamente com migalhas políticas apresentadas como grandes conquistas.

Deputados estaduais: a descoberta tardia dos problemas

Na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa, aparecem também os vereadores Rodrigo Cdeirante e Igor Dias, que, ao longo de suas trajetórias, mantiveram proximidade com o Poder Executivo municipal.

Agora, às vésperas de uma eleição, surgem críticas à atual administração e a constatação de que o governo não estaria cumprindo adequadamente suas obrigações.

Ora, a fiscalização do Executivo não deveria depender do calendário eleitoral.

Se existem problemas na administração municipal, por que não foram denunciados, debatidos e enfrentados com a mesma intensidade durante os anos de mandato?

A oposição não pode ser apenas uma estratégia de campanha. A fiscalização deve ser permanente, independentemente de conveniências partidárias ou eleitorais.

O MITO DO “VOTO NO CANDIDATO DA TERRA”

Durante muitos anos, ouvi de diversos setores da sociedade montes-clarense a defesa apaixonada do chamado “voto no candidato da terra”.

A ideia tem apelo emocional e, à primeira vista, parece fazer sentido. Afinal, quem conhece os problemas locais poderia, em tese, representar melhor os interesses da região.

Mas a realidade exige uma reflexão mais profunda.

Montes Claros continua enfrentando desafios estruturais que limitam seu crescimento e sua projeção nacional. Enquanto isso, o discurso bairrista permanece sendo utilizado como argumento eleitoral, muitas vezes sem que se examine a capacidade real dos candidatos.

Ser de Montes Claros não é, por si só, uma qualificação política.

O que deve credenciar um candidato é sua competência, sua integridade, seu preparo, sua capacidade de articulação e, principalmente, os resultados que consegue entregar.

Não basta nascer na cidade. É preciso trabalhar por ela.

Não basta pedir votos em nome da região. É necessário apresentar um projeto capaz de tirá-la da estagnação.

O DEVER DE CASA DOS CANDIDATOS

Aos vereadores da Câmara Municipal de Montes Claros que estão disputando uma vaga de deputado estadual ou federal, deixo um desafio.

Antes de pedir o voto da população, apresentem respostas para questões que afetam diretamente o futuro da cidade.

Não são perguntas partidárias. São perguntas de interesse público.

1. O Plano Diretor

O Plano Diretor de Montes Claros, aprovado pela Câmara Municipal em 2016, deveria ser um dos principais instrumentos de planejamento do desenvolvimento urbano.

Quais ações concretas os vereadores estudaram, defenderam ou acompanharam para transformar esse plano em realidade?

Quais metas foram cumpridas? Quais permanecem abandonadas?

2. O Código de Uso e Ocupação do Solo

O ordenamento territorial é fundamental para garantir crescimento urbano organizado, segurança jurídica e atração de investimentos.

O que foi efetivamente feito para modernizar, aplicar e fiscalizar o Código de Uso e Ocupação do Solo?

A cidade está preparada para crescer de forma planejada ou continua avançando ao sabor das circunstâncias?

3. O Distrito Industrial II

O Distrito Industrial II poderia desempenhar papel estratégico na expansão econômica de Montes Claros.

Mas quais melhorias foram realizadas para torná-lo mais atrativo?

Existe infraestrutura adequada? Há planejamento para receber novas empresas? Quais incentivos estão sendo discutidos para estimular a instalação de indústrias e a geração de empregos?

Quantas novas indústrias foram atraídas e quais são as metas para os próximos anos?

4. A concessão dos serviços de saneamento

A situação da Copasa e as mudanças na estrutura de prestação dos serviços de saneamento exigem atenção permanente do Poder Público.

Considerando as discussões sobre concessões, participação privada e o marco legal do saneamento, quais estudos foram realizados para identificar as necessidades de Montes Claros e garantir investimentos, qualidade dos serviços e tarifas justas?

A população precisa saber quais compromissos estão sendo assumidos e como será feita a fiscalização.

5. O tratamento de esgoto

A cobrança da tarifa de esgoto, especialmente diante dos questionamentos sobre a capacidade e a eficiência das estações de tratamento, merece transparência.

Há dúvidas levantadas por cidadãos sobre a capacidade operacional da ETE e sobre a correspondência entre os serviços efetivamente prestados e os valores cobrados.

Por que não promover uma fiscalização técnica independente, com acesso aos projetos, às plantas, aos dados operacionais e aos indicadores de tratamento?

A população tem o direito de conhecer a eficiência do serviço pelo qual paga.

6. As multas de trânsito

As multas de trânsito são frequentemente debatidas nas reuniões da Câmara Municipal.

Mas uma pergunta permanece:

Todo o dinheiro arrecadado está sendo aplicado efetivamente na melhoria da mobilidade urbana, da sinalização, da segurança viária e da infraestrutura de trânsito?

Existe transparência sobre a arrecadação e a destinação desses recursos? Há relatórios públicos detalhados?

Não basta discutir multas. É preciso acompanhar a aplicação do dinheiro.

7. A iluminação pública

Com a substituição de luminárias convencionais por tecnologia LED, seria razoável esperar ganhos de eficiência e redução dos custos de consumo e manutenção.

Diante disso, a população precisa compreender a evolução da contribuição para o custeio da iluminação pública.

Quais são os custos atuais? Qual foi a economia obtida? Como os recursos arrecadados estão sendo aplicados?

Existe uma conta específica, com transparência suficiente, para demonstrar os investimentos na ampliação e modernização da rede nos bairros?

A sociedade não pode ficar apenas com a promessa de uma cidade mais iluminada. Precisa conhecer os números.

8. O transporte coletivo urbano

O transporte público de Montes Claros é um dos problemas mais visíveis da cidade.

Ônibus antigos, usuários insatisfeitos, mudanças de itinerários e dificuldades no acompanhamento das linhas pelo aplicativo MOCBUS fazem parte das reclamações de muitos passageiros.

Enquanto isso, anuncia-se a chegada de ônibus elétricos.

Mas algumas questões precisam ser esclarecidas:

  • Como funciona, exatamente, o modelo de concessão e participação do município no transporte coletivo?
  • Quais são as responsabilidades do poder público e das empresas privadas?
  • Como será financiada a aquisição dos 50 ônibus elétricos?
  • Qual será o impacto financeiro para o município e para os usuários?
  • Qual é o cronograma de substituição da frota?
  • Quais medidas serão tomadas para melhorar o serviço enquanto os novos veículos não chegam?

O usuário não pode continuar esperando por um transporte digno enquanto os projetos permanecem no papel.

9. O antigo prédio da Coteminas

A transação envolvendo o antigo prédio da Coteminas, atualmente utilizado como sede da Prefeitura, também merece esclarecimentos públicos.

Quais foram os critérios utilizados na negociação? Qual foi o valor envolvido? Quais estudos fundamentaram a decisão? Houve avaliação patrimonial, análise de custos e transparência sobre as condições do negócio?

O patrimônio público exige responsabilidade. Toda operação que envolva recursos ou bens públicos deve ser explicada à sociedade de maneira clara e documentada.

MONTES CLAROS PRECISA DE MAIS DO QUE PROMESSAS

Este é o dever de casa que deixo aos pré-candidatos.

Não se trata de uma provocação vazia, tampouco de uma tentativa de impedir que qualquer cidadão dispute uma eleição. Trata-se de exigir coerência.

Quem pretende representar Montes Claros na Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional precisa demonstrar que conhece os problemas da cidade e possui capacidade para enfrentá-los.

Não basta fazer oposição na véspera da eleição. Não basta aparecer em eventos, distribuir favores ou anunciar obras pontuais.

A cidade precisa de planejamento, fiscalização, projetos estruturantes e compromisso com resultados.

Montes Claros não pode continuar ocupando posições que não correspondem ao seu potencial econômico, populacional e estratégico.

Uma cidade que se orgulha de ser um dos principais entroncamentos rodoviários do país, polo regional de saúde, educação, comércio e serviços, precisa almejar muito mais.

Não é aceitável que seu futuro seja definido por interesses individuais, disputas partidárias ou candidaturas sem propostas consistentes.

A franqueza incomoda. Às vezes, dói.

Mas muito mais doloroso será olhar para trás daqui a alguns anos e descobrir que perdemos novas oportunidades porque preferimos o silêncio à cobrança, a bajulação à fiscalização e a promessa ao planejamento.

A história não costuma perdoar a omissão.

Montes Claros precisa acordar.

Precisa exigir mais de seus representantes, acompanhar seus mandatos e compreender que o voto não é um favor: é uma procuração para administrar o futuro de toda uma sociedade.

A cidade não precisa de salvadores da pátria.

Precisa de homens e mulheres preparados, comprometidos e capazes de transformar potencial em desenvolvimento.

ACORDA, MONTES CLAROS!

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Opinião
Luciano Meira

O Outro Lado da Moeda

Diretor e consultor de negócios com ampla visão estratégica, voltado para o desenvolvimento de processos produtivos, gestão empresarial e inovação. Reconhecido pela capacidade de identificar oportunidades, otimizar operações e implementar soluções que agregam valor ao mercado.

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